Solidão é camuflagem e autodefesa

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solidão
Por Marco Aurélio Dias - A síndrome da solidão é um comportamento induzido pelo instinto de sobrevivência. Embora as pessoas se organizem socialmente, elas possuem uma tendência natural à solidão. E quanto maior for a violência social nas populações humanas em desequilíbrio demográfico, mais as pessoas tendem a se camuflar e fugir do convívio. Porque a solidão, onde a pessoa se expõe menos, é a condição que mais oferece garantias de proteção e sobrevivência. É isso o que o indivíduo sente. Quanto mais só, mais preservado. O pânico pode ser considerado o desequilíbrio da síndrome da solidão. Ele é o alerta máximo para a presença do inimigo e a pessoa imagina e reage psicologicamente a ameaças imaginárias, o que causa sintomas físicos de alguém que está sendo perseguido e em fuga acelerada. O paciente vive fugindo do inimigo. 

A transfiguração da realidade

     O Cavaleiro da Triste Figura, personagem de Dom Quixote de La Mancha, avistava a hélice de um moinho e imaginava que aquilo era um dragão. Em seguida, preparava-se para o combate. Puxava a espada e brigava com o moinho, imaginando tratar-se de um dragão perigoso. O medo leva qualquer indivíduo a uma situação semelhante. A transfiguração da realidade é um comportamento mental bastante corriqueiro na vida psicológica das pessoas. Vários casos de bipolaridade podem se encaixar aqui. Existe uma ligação psicológica entre os medos e a autodefesa contra o inimigo (predador), sendo que as reações são as mais variadas. No caso da síndrome da solidão, apenas sentimos que estamos mais camuflados sozinhos do que em grupos. E todos nós somos moldados por esse sentimento ancestral e arquetípico. A socialização humana é a tentativa de unir ou colocar permanentemente juntos o homem com o seu inimigo principal, que é o próprio homem. Já foi sobejamente entendido que o homem é o predador do homem e que as chances de uma pessoa morrer atacada por um jacaré são infinitamente menores do que morrer criminosamente pelas mãos do próprio homem. Nenhum jacaré vai sair do seu habitat natural para ir ao centro urbano de uma cidade roubar uma joalheria ou explodir o caixa eletrônico de um banco e roubar o dinheiro que está lá. Um exemplo muito conhecido do perigo que o semelhante representa temos na história do imperador romano Júlio César que foi traído e apunhalado nas costas pelo sobrinho Brutus, a quem tinha como filho. O senado romano ofereceu vantagens a Brutus, mas em troca ele deveria assassinar César. E o imperador romano, ao abraçar o filho adotivo, foi apunhalado pelas costas. Então disse aquela famosa frase que coletiviza a sociedade como predadora: "Até tu, Brutus?" Por isso, ao mesmo tempo em que saímos da "caverna" para caminhar lado a lado com o predador, também fugimos dessa relação. Isso pode explicar comportamentos contrários simultâneos como amor e ódio, amizade e inimizade, alegria e tristeza, etc., sentimentos esses induzidos pelos nossos supersensores psicológicos que captam a presença do inimigo e o risco que corremos. Essa fuga é o que caracterizamos como síndrome da solidão. 
     Várias patologias psicológicas são desenvolvidas por causa do desequilíbrio e do sentimento exacerbado do inimigo iminente, principalmente quando a pessoa é educada em uma família onde é maximamente enfatizada a questão do perigo que as outras pessoas representam. Crianças que foram criadas presas e muito avisadas contra o perigo que as outras crianças representam são mais suscetíveis de desenvolver um diagnóstico psicológico da fuga imaginária do inimigo, na vida adulta, bem como o sintoma de Dom Quixote, que transfigura objetos ou situações simples em objetos e situações ameaçadoras, criando um constante estado psicológico de luta contra um inimigo imaginário. Algumas situações criminosas vividas podem deixar a pessoa com o cérebro em alerta permanente para os perigos da existência, caracterizando essas patologias que associam perigos imaginários a situações normais de convivência. As situações que podem levar ao exacerbamento da síndrome da solidão são as mais variadas. Mas a síndrome da solidão como comportamento de autodefesa contra o inimigo, onde de certa maneira a pessoa se afasta o necessário do convívio social para ficar camuflada e fora do alcance do predador, é simplesmente um comportamento natural.

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     A síndrome da solidão


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